*ela entra às escuras e às escuras pisa o tênis azul dele. não que visse que era azul, sequer que era um pé que ela pisava. -putz, o tênis do sábado!, ele pensa, balão de quadrinhos sob a cabeça. não que ela visse o balão, mas desconfiou a cabeça. melhor ainda: o cabelo escurecido dele. aquele escolhido pros dias em que a vida pede um blues e tênis azul. calhava pedir desculpas, mas, ela assumiu a música alta e os riscos: pisou o outro pé do moço. ele entendeu, sorriu de volta. -tênis se lava na segunda. e, sendo sujo aquele blues, aquele dia, ela dançou inteira sob os tênis (agora amarelados pela tinta na sola do tênis branco dela. onde ela pisou antes de entrar lá? ele não sabe, ninguém sabe, nem este narrador. e olha que só eu vi quando os dois foram embora entre a embriaguez do blues e da água mineral. isso dito no sussurro destes parênteses)*.
que me perdoem pela água mineral (com gás), mas, tudo o mais neste rabisco-introdução é fictício, sendo qualquer verossimilhança culpa das vozes e acordes de felipe breier (voz e violão), lenine rodrigues (guitarra, violão e voz), igor ribeiro (percuteria), raul porfírio (baixo, violão e voz) e makito vieira (bandolim, sanfona, voz, percussão e direção musical). o show *ninguém vive por mim* bem podia ter sido cenário pra este casal usando os tênis que ventríloquo tanto gosta. entre os azuis da noite e do cartaz pendurado na memória.
nenhuma noite é completa até se pintar, inteira, de uma paleta de azuis e amarelos. ao contrário de outras cenas musicais, a cenografia do show estava do lado de cá, aconchegando quem se chegava. no palco, músicos e instrumentos numa provocação mútua e constante. o desafio do melhor ensaio. sedução entre eles e com o público. instrumentos como gentes gritando coisas indizíveis.
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| foto sem autoria sabida por este ventríloquo |
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| foto de divulgação: Dri |
e todos viajamos de trem em minutos, vendo cabras pastando do lado de fora. vendo cabras babando, entre cervejas e admiração, do lado de dentro. o sucesso do melhor ensaio e ventríloquo dançou ainda que ninguém mais. dançou ainda que ninguém mais visse.







